Tem mesinha sim!

A expressão “treino de mesinha” está associada geralmente com o que chamamos de procedimento de tentativa discreta.

Imagine a seguinte situação, aparentemente simples e corriqueira: uma criança, na escola, está aprendendo uma música nova. A professora canta a música, ao mesmo tempo que apresenta uma coreografia, e todos os alunos precisam acompanha-la (ou pelo menos tentar). Você consegue pensar em todas as habilidades/comportamentos que essa criança precisa apresentar? Vamos lá:

  1. Fazer e manter contato visual com a professora;
  2. Fazer e manter contato visual com os colegas (afinal, eles também podem dar dicas de como se comportar nesse momento);
  3. Ouvir a música cantada pela professora;
  4. Imitar vocalmente a música cantada pela professora;
  5. Observar os passos da coreografia apresentada pela professora;
  6. Imitar os passos da coreografia apresentada pela professora;
  7. Coordenar os passos da coreografia com os trechos certos da música cantada;
  8. Focar a atenção na música e coreografia apresentada pela professora (sem se distrair com outros comportamentos eventualmente apresentados pelos colegas, por exemplo)…

Essas são somente algumas das habilidades envolvidas nessa situação. Agora, imagine uma criança com TEA nesse contexto, sendo exigida em todas elas, de uma única vez. Difícil, se ela ainda não as apresenta no seu repertório, não é mesmo? Certamente, essa criança desistiria rapidamente de se engajar na atividade, buscando outra, de maior prazer.

O procedimento de tentativa discreta é basicamente uma situação planejada e estruturada para garantir a oportunidade de resposta do indivíduo. Visa separar cada uma dessas habilidades e garantir a oportunidade para que a criança com TEA as desenvolva, primeiramente, de forma mais estruturada e em um contexto com menos interferência sobre o que é importante aprender.

Voltando ao exemplo, então, ensinaríamos essa criança, separadamente:

1)Imitar os movimentos de coordenação motora ampla;

2) Imitar sons, palavras e frases cantadas.

E somente depois dessas duas habilidades já fortalecidas no repertório dessa criança, a colocaríamos sob a demanda de cantar e dançar a coreografia da música.

Ops! Em algum momento eu falei de mesinha nesse exemplo ou na proposta de ensino das habilidades? Não! Então, tentativa discreta e “treino de mesinha” não são a mesma coisa?! Não! A “mesinha” é somente uma forma de organizar o ambiente para o ensino de uma habilidade. Uma tentativa de garantir mais concentração da criança. Temos que e devemos garantir contextos, ambientes e situações que favoreçam a aprendizagem dos indivíduos com TEA. Se uma criança com TEA é capaz de aprender em uma atividade realizada no chão, ótimo! O importante é a aprendizagem dela da forma mais prazerosa e motivada possível.

Em poucas palavras: tentativa discreta não é treino de mesinha. Tentativa discreta é ambiente estruturado de ensino. A mesinha pode ser importante aliada no ensino de muitas habilidades. A mesinha pode ajudar o indivíduo a se concentrar melhor naquilo que precisa aprender. É possível aplicar outros procedimentos da ABA na mesinha, além da tentativa discreta. Tentativa discreta também se faz fora da mesinha.

 

Encontrei um vídeo de divulgação muito interessante sobre tentativa discreta. A literatura científica sobre esse procedimento é vasta. Fica o meu convite para você se aprofundar mais nisso…