Série “Desafios na terapia ABA”: o trabalho em parceria com escolas

Resolvi lançar uma série (que não será publicada em sequência, mas sim em momentos oportunos) de publicações que fogem um pouco (mas não muito) do caráter desta página que é disseminar informação técnica de boa qualidade sobre terapia fundamentada na Análise Aplicada do Comportamento e intervenção para indivíduos com TEA. Digo isso porque serão publicações mais de cunho opinativo do que técnico/científico como a maior parte dos posts até agora publicados.

Esse primeiro tema de debate surgiu em função de várias experiências com equipes escolares pelo país todo. Tenho acompanhado de perto a angústia de muitos pais com a (im)possibilidade de garantir um atendimento individualizado para seus filhos no ambiente escolar, por mais necessário que seja para a criança ou até mesmo, por mais que seja garantindo por lei.

É fato que um profissional a mais em sala de aula (além do professor e dos eventuais auxiliares) altera, especialmente no início do processo, a dinâmica e até mesmo a estrutura da mesma (afinal de contas, em muitos casos, é uma pessoa a mais ocupando aquele espaço – algumas delas já com dimensões reduzidas). As crianças da turma perguntam o que aquela pessoa está fazendo lá, por que só fica com aquela criança (que está ou precisa estar amparada pelo processo de inclusão), por que ajuda tanto aquela criança, por que dá brinquedo e outras coisas para a criança brincar depois de uma atividade, etc. Crianças são seres curiosos e perguntam mesmo. É da nossa natureza! Entretanto, também por experiência própria, vejo turmas inteiras de crianças, por vezes com pouquíssima idade (3, 4 anos) executando todas as estratégias orientadas e de responsabilidade do tutor e professor. Elas garantem as ajudas necessárias para a criança com TEA responder às demandas, manejam comportamentos mais difíceis como birras e até agressões, aplicam quadro de rotina individualizado, combinados visuais, disponibilizam reforçadores arbitrários e sociais. A dinâmica da sala muda? Com certeza! Mas mudanças como essas são perniciosas em algum sentido? Não vejo em qual.

Recentemente ouvi a seguinte frase: “não é política da escola aceitar tutor para uma criança em sala de aula”. Sim! Ouvi exatamente dessa forma. O mais paradoxal dessa situação é que, hoje, a escola precisa e acaba colocando a auxiliar de sala no front do trabalho com a criança com TEA. A equipe escolar se esforça ao máximo para garantir que a criança aproveite as atividades e rotina escolar. Porém, é clara a necessidade de um acompanhamento individualizado treinado, capacitado para atender a tudo que essa criança precisa. Também percebo uma boa vontade de todos da equipe. Eles estão se esforçando, genuinamente. Mas a estrutura da escola tem suas limitações e não abrir possibilidade de um tutor é uma delas. Do meu ponto de vista, uma das limitações mais graves para um processo pleno de inclusão. Não vou citar, nesse momento, o conjunto de leis que garantem (ou tentam garantir) esse e outros suportes importantes. Caso você queira se aprofundar mais nisso, publiquei outros posts sobre processo de inclusão e neles estão essas leis. A escola não abre condição para um tutor especializado, mas, no “frigir dos ovos”, essa pessoa precisa existir no dia a dia da sala para que a professora consiga trabalhar minimamente com a turma e com essa criança com TEA. E ela não está capacitada para isso. Resultado: um processo de inclusão com falhas (se é que é possível chamar isso de inclusão).

Também já ouvi algo como “não é política da escola receber profissionais que atendem as crianças com significativa frequência”. Entendo parcialmente essa colocação. Na prática, a maioria dos profissionais que atendem crianças com algum tipo de necessidade especial não costuma mesmo estar na escola mensalmente, por exemplo. As visitas são agendadas conforme a necessidade. Entretanto, se, por exemplo, o principal foco da terapia (estou falando da terapia fundamentada na ABA) é o desenvolvimento de repertório social, qual é o melhor ambiente, o mais rico de informações sobre isso? A escola! As crianças passam metade de suas horas semanais nesse contexto, ou seja, pelo menos metade das horas de estimulação recomendadas internacionalmente. E se a criança, então, apresenta dificuldades muito, muito sutis, praticamente imperceptíveis a uma olhar menos treinado e especializado? Vejo que é crucial a presença do analista do comportamento de forma constante para observações sistemáticas e coleta de informações para planejamento dos programas de terapia individualizada. Ainda assim … “não é política da escola a presença constante de profissionais”. Estamos buscando juntas, eu e equipe escolar, um consenso.

Em meio a tantos desafios e dificuldades, conforta conseguir trabalhar efetivamente em parceria com diversas equipes escolares. O processo de inclusão ainda não é fácil porque a instituição ESCOLA ainda está organizada em moldes já muito, muito ultrapassados para todas as crianças, sem exceção. Conforta ver que muitas equipes escolares ainda presas a esses moldes, se colocam efetivamente abertas a mudar e reinventar caminhos. Muitas delas já me disseram “não sabemos como fazer isso, mas vamos tentar”, “será a primeira vez que faremos isso”. São falas de aposta nessas mudanças. Espero que as que já disseram “não é política da escola”, também consigam, algum dia, dizer “será a primeira vez que faremos isso”.

É trabalho que exige dedicação de formiguinha e paciência histórica. As crianças e suas famílias agradecem.

 

* direitos de imagem da imagem destacada na publicação para thinknsmile.com

A terapia ABA e o processo de inclusão escolar: a importância do acompanhante (tutor) na escola

Na Lei Nº 12.764 (27 de dezembro de 2012) está explicitado claramente no Artigo 3º, parágrafo único:

Parágrafo único.  Em casos de comprovada necessidade, a pessoa com transtorno do espectro autista incluída nas classes comuns de ensino regular, nos termos do inciso IV do art. 2o, terá direito a acompanhante especializado.

Obviamente que o caminho entre o que está na legislação vigorante e a realidade de muitas famílias do país ainda é muito desencontrado. Não entrarei no campo de discussão sobre o responsável pelo custeio de tal profissional (porque isso resultaria em longo, demorado e acalorado debate – o que, por hora, foge aos objetivos do post), porém, dentro do contexto de terapia ABA, a capacitação desse profissional é fundamental e cabe ao analista do comportamento garantir condições para sua melhor formação e atuação.

O acompanhante (dependendo da região do país, chamamos de tutor, monitor, professor auxiliar) escolar tem importância fundamental no processo de generalização das habilidades desenvolvidas no contexto da terapia individualizada. Ou seja, cabe ao acompanhante escolar ser a ponte entre o que a criança aprende no ambiente individualizado e o que ela precisa ser capaz de realizar no ambiente natural escolar.

Em posts anteriores, detalhei algumas contribuições da Análise Aplicada do Comportamento no processo de inclusão escolar. Também mencionei em alguns momentos a importância da parceria com a equipe da escola. Para completar esse cenário, é necessário que o acompanhante escolar também seja integrado a essa equipe e consiga, no dia a dia, garantir as condições necessárias para que essas contribuições sejam efetivamente aplicadas. Essa integração clara, coerente e preciosa depende de algumas condições:

  1. Funções claras do acompanhante na mediação da relação professor/aluno: o acompanhante não substitui e jamais substituirá o professor que deve passar a ser referência em sala para a criança com TEA. Ou seja, cabe ao acompanhante garantir as mediações necessárias para que a criança tenha sempre o professor como a figura de liderança no ambiente. Essa adequada mediação pode ocorrer quando, por exemplo: (a) o professor apresenta uma demanda para o grupo e o acompanhante garante a atenção da criança ao professor; (b) a criança precisa solicitar algo dentro ou fora da sala e o acompanhante dá dicas para ela pedir ao professor; (c) o acompanhante pede ao professor para repetir a demanda de forma mais individualizada para a criança, quando necessário, etc. O importante é garantir que a criança sempre se remeta ao professor (isso, claro, em situações naturais nas quais as outras crianças do grupo também se remetem ao profissional).
  2. Funções claras do acompanhante na mediação da relação criança/colegas da turma: outro importante desafio do acompanhante escolar é garantir que a criança com TEA interaja com seus pares da turma, ao mesmo tempo que os colegas também mantenham interação com a criança e não com o acompanhante. É óbvio que as crianças da turma fortalecerão vínculo com o acompanhante escolar da criança com TEA e não há problema algum nisso. O problema começa a existir quando essa relação e esse vínculo se restringem somente ao acompanhante escolar. Situações como (a) as crianças da turma mostrarem brinquedos ou demonstrarem mais interesse em brincar com o acompanhante; (b) as crianças da turma pedirem material emprestado, divisão de lanche para o acompanhante escolar e não para a criança que ele acompanha são exemplos de situações graves que precisam ser revertidas o quanto antes. O papel fundamental do acompanhante nessas relações é garantir interação da criança com TEA com seus pares o máximo possível e nos diferentes momentos da rotina escolar.
  3. Funções claras do acompanhante no fortalecimento de habilidades relacionadas à autonomia: em diversos momentos da rotina escolar, o acompanhante precisará mediar situações que envolvam autocuidado e autonomia da criança com TEA. Ainda assim, é importante ressaltar que esse não é e, na minha opinião, não deve ser única e exclusivamente o trabalho do acompanhante. Ou seja, ele não está com a criança somente para garantir que ela cumpra atividades dessa natureza na escola. Do contrário, o tipo de trabalho desempenhado por ele pode começar a ser caracterizado mais como de um cuidador ou babá (e, também na minha opinião, o trabalho desses profissionais não deveriam ficar circunscritos a garantir questões de autocuidado em qualquer lugar, além da escola. Mas esse tema também não é nosso foco de debate). Com relação a esse conjunto de habilidades, cabe ao acompanhante garantir o que for orientado pelo analista do comportamento e, eventualmente, por outros profissionais da equipe da criança. Por exemplo, pode ser necessário trabalhar com suporte de dicas visuais para AVDs na escola, registro do desempenho da criança nessas atividades, etc.
  4. Funções claras do acompanhante no processo de desenvolvimento pedagógico/acadêmico da criança: o que e como ensinar à criança com TEA são decisões da equipe escolar em parceria com os profissionais que a atendem, inclusive o analista do comportamento e acredito que essa posição está mais clara em publicações anteriores. O papel do acompanhante nesse processo é de: (a) confeccionar eventuais materiais, atividades e exercícios sob orientação da equipe; (b) garantir as ajudas necessárias para a criança cumprir as demandas colocadas em sala; (c) garantir os registros de acompanhamento do desenvolvimento da criança nesse aspecto. Em outras palavras, o acompanhante é responsável pela aplicação, da forma mais individualizada possível, das orientações e combinados fechados em equipe para essa parte pedagógica/acadêmica.

Algumas decisões também são necessárias em diferentes momentos. Uma delas é o perfil desse profissional. Tenho insistido que, independentemente da formação, o acompanhante precisa ter um perfil proativo. Uma formação específica da Pedagogia, embora não seja critério indispensável (claro que no contexto do ensino público, as escolas optam por essa formação como requisito), é interessante, pensando especialmente a partir dos anos letivos em que começa o processo de alfabetização das crianças.

Outra decisão importante na escolha do acompanhante é ter suas funções claramente especificadas e adequadas às necessidades da criança. Algumas crianças precisarão de um profissional que as acompanhem quase integralmente e para diferentes demandas (por exemplo, de autocuidado aos aspectos pedagógicos). Outras crianças necessitarão de um profissional que atue de forma mais sutil (em alguns momentos, inclusive, talvez nem a criança e nem a turma saibam que o acompanhante está ali para atender necessidades de mediação da criança com TEA). Tomar uma decisão dessa natureza requer avaliação detalhada das necessidades da criança e treinamento específico para as diferentes situações.

Por fim, a principal das decisões: a criança precisa ou não de um acompanhante escolar? Essa decisão também depende de um ajuste fino de olhar da equipe escolar e do analista do comportamento. Se a resposta for positiva, esse ajuste precisa ser ainda maior para garantir a clareza das funções desse profissional em um ambiente tão importante e tão significativo quanto o da escola.

A terapia ABA como ferramenta de auxílio no processo de inclusão escolar:contribuições para o trabalho pedagógico

Em publicações anteriores, destaquei diferentes características importantes da terapia ABA no processo de inclusão escolar de indivíduos com transtornos do desenvolvimento, especialmente dentro do diagnóstico de TEA. O desenvolvimento das habilidades acadêmico/pedagógicas também é foco de intervenção do analista do comportamento. Claro que esse trabalho não pode e não deve prescindir da parceria com o pedagogo, profissional altamente especializado e com formação específica para isso. Ainda assim, a Análise do Comportamento pode contribuir e contribui muito para garantir um processo mais facilitado e mais coerente com as necessidades de crianças com diagnóstico de TEA.

As contribuições da Análise do Comportamento para a Educação (formal) e para o Ensino são diversas. Não entrarei em detalhes sobre isso, pois precisaria de várias publicações somente sobre o assunto (quem sabe em outra oportunidade seja mais oportuno). Cabe, nesse momento, destacar o mais claramente possível de que maneira o analista do comportamento contribui no processo de tomada de decisões importantes tais como: 1) o que ensinar?; 2) quando ensinar? e 3) quais as melhores estratégias para ensinar?. Em diferentes momentos da trajetória de uma criança com TEA na escola, a equipe de professores e coordenadores é colocada frente a essas questões.

Uma criança que, por decisão de equipe, acompanha a turma de sua idade de referência, mesmo que, eventualmente, não cumpra os requisitos acadêmicos/pedagógicos para passar de um período escolar ao seguinte, precisa de um planejamento estratégico coerente, eficiente e eficaz como medida de garantia de seu desenvolvimento (social e acadêmico) no ambiente escolar. O analista do comportamento pode contribuir da seguinte maneira:

  1. Quando ajustes de material didático são suficientes para garantir as melhores oportunidades de aprendizagem para a criança: algumas crianças necessitam somente de ajustes específicos e individualizados do material didático (apostilas, atividades de folha, atividades de cadernos, etc.). Para esse conjunto de necessidades, o analista do comportamento pode, eventualmente, (1) sugerir alteração de tamanho de fonte das letras, (2) mudança na organização dos enunciados dos exercícios (por exemplo, em vez de uma questão que abarque, dentro dela, pelo menos três respostas distintas, o analista do comportamento pode propor para a equipe escolar que sejam feitas três questões distintas. Dessa maneira, a criança conseguirá organizar de forma mais independente suas respostas), (3) mudança da organização das páginas do material didático (por exemplo, um ou dois exercícios por página), (4) mudança na quantidade de informações por página do material (pode sugerir retirar ou, eventualmente, colocar imagens na página, separar diferentes informações em páginas diferentes, etc.). Além disso, o analista do comportamento também pode sugerir estratégias que envolvam manejo de estímulos antecedentes e consequentes no próprio material didático (orientar, por exemplo, utilização de imagens de personagens de interesse convidando a criança a cumprir as demandas do material ou programar páginas em que algum personagem de interesse comemora junto com a criança seu sucesso na realização correta de uma atividade específica).
  2. Quando é importante avaliar a priorização da aprendizagem de conteúdos específicos: a equipe escolar pode, em algum momento, avaliar a necessidade de ajustar os conteúdos pedagógicos que realmente serão importantes para a criança com TEA, em função de diversos critérios (um deles, por exemplo, referente aos conteúdos que são pré-requisitos para os anos seguintes). Embora não caiba ao analista do comportamento tomar uma decisão tão importante quanto essa, ele pode auxiliar a equipe escolar, fornecendo informações importantes como (1) habilidades pré-requisitos que a criança já apresenta em seu repertório, (2) planejamento do uso de estímulos específicos no processo de ensino (por exemplo, material de apoio concreto, dicas visuais, uso de computador e outras ferramentas para informações complementares ou preparatórias de certos conteúdos, etc.) e (3) na medida do possível e do que for necessário, implementar programas na terapia individualizada que auxiliem a aprendizagem na escola.
  3. Quando é necessário o planejamento de um currículo didático/pedagógico paralelo: muitas crianças necessitam desse recurso por estarem em períodos escolares coerentes com sua faixa etária, porém, no aspecto pedagógico elas quase não serem beneficiadas pelo processo comum às outras crianças da turma. Novamente, o analista do comportamento não é responsável pela tomada de uma decisão tão importante quanto essa. Ainda assim, ele pode contribuir com a equipe escolar, principalmente (1) fornecendo informações relevantes sobre habilidades já presentes no repertório da criança e que já foram trabalhadas em contexto de terapia individualizada, (2) decidindo junto com a equipe escolar quais habilidades podem ser trabalhadas de forma mais sistemática na terapia individualizada como forma de auxiliar o desenvolvimento da criança no contexto escolar e (3) organizando as estratégias mais eficientes para ensino dessas habilidades na terapia individualizada.

É importante destacar mais uma vez que o analista do comportamento não toma decisões sobre esses três aspectos do planejamento de ensino. A equipe da escola é (ou precisa ser)composta por profissionais especializados e capacitados na tomada dessas decisões. O papel do analista do comportamento, nesse processo, é de mediador entre o que a criança já aprendeu e aprende no contexto da terapia individualizada e o que ela precisa aprender no ambiente escolar. Outra função importante do analista do comportamento é de facilitador – diante da decisão tomada pela equipe da escola, o analista do comportamento pode sugerir estratégias e procedimentos (inclusive para manejo de comportamentos) eficientes e mais adequados às necessidades e potencialidades de aprendizagem da criança.

Um trabalho dessa natureza e complexidade exige e nos coloca a necessidade de uma equipe coesa, integrada e aberta às contribuições de cada profissional. Demanda tempo, disponibilidade e organização. Quando uma equipe se dispõe e consegue garantir isso, os resultados são visíveis: amplo desenvolvimento da criança também do ponto de vista acadêmico/pedagógico. É um exercício diário de trabalho multiprofissional. E então, quem topa?

Até próximas publicações!

A terapia ABA como ferramenta de auxílio no processo de inclusão escolar: Parte IV

Na continuação dessa série tão importante de publicações, é fundamental falar da necessidade de manejo de estímulos antecedentes às respostas da criança com TEA no ambiente escolar. No post anterior, explicitei alguns aspectos relevantes no manejo de consequências para os comportamentos da criança como forma de garantir mais efetivamente o processo de generalização das aprendizagens conquistadas no ambiente individualizado da terapia. O sucesso desse processo de generalização também depende de um ambiente altamente motivador e cabe ao tutor da criança (quando ela o tem) e à equipe da escola garantirem isso.

Uma das principais estratégias utilizadas já foi tratada em uma das primeiras publicações desta página: o quadro de rotina visual. Todas as escolas e todas as turmas dentro do ambiente escolar possuem uma forma bem peculiar de apresentar a organização da rotina para o grupo de crianças. Algumas professoras desenham e escrevem a rotina diária no quadro, outras apresentam em cartazes ou montada em quadros de EVA, etc. Entretanto, para parte significativa das crianças que atendo, esse formato chama pouco ou quase nada sua atenção. Cabe, então, ao tutor ou professor/equipe escolar programar uma condição mais facilitadora para a criança compreender e acompanhar a rotina do grupo com mais sucesso e mais tranquilidade. O quadro de rotina visual e individualizado para a criança é uma ótima alternativa. Ele pode ser confeccionado com a rotina geral e/ou até mesmo com mini rotinas de cada momento das atividades comuns da turma.Também pode ser confeccionado com fotos da criança nas atividades ou com imagens retiradas da internet. O critério de escolha é que o material precisa ser efetivo no ensino, apropriação e execução da rotina pela criança. Uma mãe de uma das crianças que atendo pelo país fez uma versão móvel do quadro de rotina geral. A base móvel pode ser utilizada na escola, com fotos e imagens específicas da criança naquele contexto.

 

Outro recurso igualmente importante são os combinados visuais e dicas visuais para comportamentos específicos. Tanto os combinados quanto as dicas podem ser organizados em formato de chaveirinho de imagens. O tutor ou professor mostra o combinado PRIMEIRO ________ / DEPOIS ___________, como forma de relembrar a criança que ela precisa cumprir uma determinada demanda para, em seguida, ter acesso a algum item e/ou atividade de interesse (reforçador). As dicas visuais podem ser utilizadas como regras que o tutor ou professor geralmente colocaria de forma verbal. Quando a criança lê ou vê a imagem da dica (palavra ou frase que explicita uma regra de conduta), essa informação pode se tornar um estímulos discriminativo para o comportamento adequado no momento. Por exemplo, em vez do tutor ou professor dizer repetidamente para a criança prestar atenção na atividade, ele pode apresentar a dica visual (imagem ou frase curta e direta). Esse tipo de dica permanece mais tempo no ambiente da criança, facilitando a emissão do comportamento mais adequado.

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A utilização de imagens de personagens e temas de interesse nas atividades pedagógicas também é uma estratégia com efeitos para o melhor desempenho da criança nas mesmas. O professor pode incluir como parte da tarefa (e todos os alunos da turma receberem o mesmo material) ou pode utilizar carimbos, adesivos e imagens da internet impressas especialmente para a criança com TEA. O tutor pode complementar a situação, comentando que a criança fará a atividade junto com o personagem de interesse ou que, ao fazer a atividade o personagem ficará feliz, etc.

As dicas visuais são fortes aliadas na garantia de melhor concentração e, consequentemente, melhor aproveitamento da criança nas atividades de rotina da escola. Nos próximos posts continuarei falando sobre esse tema. Por mais publicações que possam ter sobre ele, é algo que nunca se esgota. Sempre temos algo com que contribuir no ambiente escolar. Até lá.

 

 

A terapia ABA como ferramenta de auxílio no processo de inclusão escolar: Parte I

Seguindo o ritmo ditado pelo mês de abril, de conscientização sobre o Autismo, quando falamos do processo de inclusão da pessoa diagnosticada com TEA, uma das primeiras preocupações é a garantia desse processo no ambiente escolar. Afinal de contas, quando pensamos no desenvolvimento infantil na nossa cultura, a escola é o segundo ambiente mais significativo na vida de qualquer criança (considero o primeiro, a família).

B. F. Skinner (1904 – 1990), o fundador da Análise do Comportamento como disciplina científica e um dos principais pesquisadores/interessados no processo de ensino e aprendizagem definiu o ensino como “(…) arranjo de contingências [condições] de reforçamento sob as quais os alunos aprendem. Eles [os alunos] aprendem sem ensino nos seus ambientes naturais, mas os professores planejam [ou são responsáveis por planejar] contingências especiais para otimizar a aprendizagem, acelerando a aprendizagem de comportamentos que se daria mais lentamente [nos demais ambientes naturais] ou certificando-se da aprendizagem de comportamentos que, em outras condições, não ocorreria.” (The technology of teaching, p. 64-65). A tradução está contextualizada na nossa língua. O original para conferência segue ao final deste post.

Esse trecho de um dos principais livros de Skinner trata justamente do cerne do ambiente escolar: programar condições de ensino adequadas, ajustadas e, em última análise, individualizadas como forma de garantir a aprendizagem de comportamentos socialmente significativos. E mais, Skinner não destacou esse importante objetivo da escola especificamente para crianças com algum tipo de diagnóstico. Essa condição vale para qualquer criança. Nesse sentido, o ensino individualizado é o cerne da Análise do Comportamento. Não é à toa que Skinner dedicou parte de sua obra na descrição dessas importantes contingências, inclusive destacando a necessidade de uso da tecnologia para garantir mais eficiência e eficácia nesse processo.

Mas como podemos traduzir na prática essa descrição tão importante de Skinner? Tentarei colocar pelo menos em linhas gerais algumas estratégias desenvolvidas no contexto de intervenção sobre TEA em uma série de publicações, começando por esta. Quando falamos da necessidade de um arranjo de contingências para aprender, temos que pensar desde a estrutura física de uma sala de aula até a parceria na aplicação de estratégias de manejo de comportamento e pedagógicas com colegas de sala, professores, coordenação, direção e demais funcionários da escola.

Na página deste blog ABA na escola, destaquei a importância da parceria com a equipe escolar para que a intervenção ABA efetivamente aconteça nesse ambiente e nós sejamos capazes de completar as horas de estimulação tão necessárias para o desenvolvimento da criança com TEA. Sem dúvida, esse caminho da parceria não é dos mais fáceis, especialmente porque exige dos dois lados, família e escola, o equilíbrio constante entre o que é ideal (por exemplo, o que consta em leis) e o que é real (por exemplo, as condições necessárias para que as leis sejam efetivamente cumpridas). Entretanto, faz parte do nosso trabalho, do trabalho do analista do comportamento inclusive, transformar essa realidade por vezes difícil no mais próximo do que idealizamos.

Falarei, nessa série de posts, sobre os procedimentos ABA aplicados no processo de inclusão escolar das crianças com TEA. E começo trazendo um bom exemplo dessa tentativa de transformação e parceria entre família e escola. Pedi a autorização da família, escola e demais participantes do processo para postar algumas fotos muito especiais sobre o dia 02 de abril. Elas vêm lá de Itajubá/MG.

Não se trata de vestir uma simples camiseta em um dia marcadamente especial. Essa fotos simbolizam um processo de anos de parceria e conquistas de todos. Quer saber o que foi feito em termos de terapia ABA? Acompanhe os próximos posts.

 

Trecho original do livro The technology of teaching: “Teaching is the arrangemente of contingencies reinforcement under which students learn. They learn whithout teaching in their natural environments, but teachers arrange special contingencies which expedite learning, hastening the appearance of behavior which would otherwise be acquired slowly or making sure of the appearance of behavior which might otherwise never occur.” (p. 64-65).

 

Obra consultada:

Skinner, B. F. (1968). The technology of teaching. New York: Applenton-Century-Crofts.