A terapia ABA como ferramenta de auxílio no processo de inclusão escolar:contribuições para o trabalho pedagógico

Em publicações anteriores, destaquei diferentes características importantes da terapia ABA no processo de inclusão escolar de indivíduos com transtornos do desenvolvimento, especialmente dentro do diagnóstico de TEA. O desenvolvimento das habilidades acadêmico/pedagógicas também é foco de intervenção do analista do comportamento. Claro que esse trabalho não pode e não deve prescindir da parceria com o pedagogo, profissional altamente especializado e com formação específica para isso. Ainda assim, a Análise do Comportamento pode contribuir e contribui muito para garantir um processo mais facilitado e mais coerente com as necessidades de crianças com diagnóstico de TEA.

As contribuições da Análise do Comportamento para a Educação (formal) e para o Ensino são diversas. Não entrarei em detalhes sobre isso, pois precisaria de várias publicações somente sobre o assunto (quem sabe em outra oportunidade seja mais oportuno). Cabe, nesse momento, destacar o mais claramente possível de que maneira o analista do comportamento contribui no processo de tomada de decisões importantes tais como: 1) o que ensinar?; 2) quando ensinar? e 3) quais as melhores estratégias para ensinar?. Em diferentes momentos da trajetória de uma criança com TEA na escola, a equipe de professores e coordenadores é colocada frente a essas questões.

Uma criança que, por decisão de equipe, acompanha a turma de sua idade de referência, mesmo que, eventualmente, não cumpra os requisitos acadêmicos/pedagógicos para passar de um período escolar ao seguinte, precisa de um planejamento estratégico coerente, eficiente e eficaz como medida de garantia de seu desenvolvimento (social e acadêmico) no ambiente escolar. O analista do comportamento pode contribuir da seguinte maneira:

  1. Quando ajustes de material didático são suficientes para garantir as melhores oportunidades de aprendizagem para a criança: algumas crianças necessitam somente de ajustes específicos e individualizados do material didático (apostilas, atividades de folha, atividades de cadernos, etc.). Para esse conjunto de necessidades, o analista do comportamento pode, eventualmente, (1) sugerir alteração de tamanho de fonte das letras, (2) mudança na organização dos enunciados dos exercícios (por exemplo, em vez de uma questão que abarque, dentro dela, pelo menos três respostas distintas, o analista do comportamento pode propor para a equipe escolar que sejam feitas três questões distintas. Dessa maneira, a criança conseguirá organizar de forma mais independente suas respostas), (3) mudança da organização das páginas do material didático (por exemplo, um ou dois exercícios por página), (4) mudança na quantidade de informações por página do material (pode sugerir retirar ou, eventualmente, colocar imagens na página, separar diferentes informações em páginas diferentes, etc.). Além disso, o analista do comportamento também pode sugerir estratégias que envolvam manejo de estímulos antecedentes e consequentes no próprio material didático (orientar, por exemplo, utilização de imagens de personagens de interesse convidando a criança a cumprir as demandas do material ou programar páginas em que algum personagem de interesse comemora junto com a criança seu sucesso na realização correta de uma atividade específica).
  2. Quando é importante avaliar a priorização da aprendizagem de conteúdos específicos: a equipe escolar pode, em algum momento, avaliar a necessidade de ajustar os conteúdos pedagógicos que realmente serão importantes para a criança com TEA, em função de diversos critérios (um deles, por exemplo, referente aos conteúdos que são pré-requisitos para os anos seguintes). Embora não caiba ao analista do comportamento tomar uma decisão tão importante quanto essa, ele pode auxiliar a equipe escolar, fornecendo informações importantes como (1) habilidades pré-requisitos que a criança já apresenta em seu repertório, (2) planejamento do uso de estímulos específicos no processo de ensino (por exemplo, material de apoio concreto, dicas visuais, uso de computador e outras ferramentas para informações complementares ou preparatórias de certos conteúdos, etc.) e (3) na medida do possível e do que for necessário, implementar programas na terapia individualizada que auxiliem a aprendizagem na escola.
  3. Quando é necessário o planejamento de um currículo didático/pedagógico paralelo: muitas crianças necessitam desse recurso por estarem em períodos escolares coerentes com sua faixa etária, porém, no aspecto pedagógico elas quase não serem beneficiadas pelo processo comum às outras crianças da turma. Novamente, o analista do comportamento não é responsável pela tomada de uma decisão tão importante quanto essa. Ainda assim, ele pode contribuir com a equipe escolar, principalmente (1) fornecendo informações relevantes sobre habilidades já presentes no repertório da criança e que já foram trabalhadas em contexto de terapia individualizada, (2) decidindo junto com a equipe escolar quais habilidades podem ser trabalhadas de forma mais sistemática na terapia individualizada como forma de auxiliar o desenvolvimento da criança no contexto escolar e (3) organizando as estratégias mais eficientes para ensino dessas habilidades na terapia individualizada.

É importante destacar mais uma vez que o analista do comportamento não toma decisões sobre esses três aspectos do planejamento de ensino. A equipe da escola é (ou precisa ser)composta por profissionais especializados e capacitados na tomada dessas decisões. O papel do analista do comportamento, nesse processo, é de mediador entre o que a criança já aprendeu e aprende no contexto da terapia individualizada e o que ela precisa aprender no ambiente escolar. Outra função importante do analista do comportamento é de facilitador – diante da decisão tomada pela equipe da escola, o analista do comportamento pode sugerir estratégias e procedimentos (inclusive para manejo de comportamentos) eficientes e mais adequados às necessidades e potencialidades de aprendizagem da criança.

Um trabalho dessa natureza e complexidade exige e nos coloca a necessidade de uma equipe coesa, integrada e aberta às contribuições de cada profissional. Demanda tempo, disponibilidade e organização. Quando uma equipe se dispõe e consegue garantir isso, os resultados são visíveis: amplo desenvolvimento da criança também do ponto de vista acadêmico/pedagógico. É um exercício diário de trabalho multiprofissional. E então, quem topa?

Até próximas publicações!

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